A aquacultura é uma prática milenar iniciada com os japoneses, egípcios e povos do Havaí. Nos seus primórdios o cultivo de ostras e algas era realizado em pequena escala aproveitando-se dos serviços ambientais que o mar oferecia. Uma vez respeitando-se os limites naturais dos ecossistemas onde estavam inseridos e sem abusar dos procedimentos artificiais para aumentar a escala de produção, os recursos gerados eram duradouros e atendiam as expectativas das pequenas comunidades de pescadores.

Fonte: https://www.pesca.sp.gov.br/ip-na-midia/1521-fazendas-marinhas-podem-gerar-ate-8-mil-empregos-no-litoral
Nos dias atuais, com a população humana ultrapassando a marca dos 7,5 bilhões de habitantes a demanda por recursos naturais (alimento, matéria prima e energia) tem sido muito acima da capacidade de reposição retirados de vários locais do planeta. O oceano, particularmente, tem sofrido muitas agressões agudas e crescentes devido à ânsia do lucro fácil sem a preocupação dos cuidados necessários para manter a natureza viva e produtiva. Dessa forma muitos empreendimentos só consideram os custos relativos à produção sem incorporar os valores necessários para a manutenção e conservação dos ecossistemas onde as fazendas marinhas estão inseridas. Não considerar o custo ambiental inerente em qualquer empreendimento que dependa dos serviços ambientais é matar em curto prazo a “galinha dos ovos de ouro”. Depois da natureza destruída a sua recuperação, quando possível, requer um tempo muito além da memória e da capacidade do ser humano, inviabilizando assim a exequibilidade.

Fonte: https://outraspalavras.net/outrasmidias/alternativa-as-promissoras-fazendas-marinhas/
As fazendas marinhas tem uma importante função de aplacar, com proteína marinha, a fome do planeta e também na produção de fármacos para a saúde humana. As algas, moluscos, peixes e crustáceos são alguns dos elementos de cultivo em fazendas marinhas mundo afora. Ao atender parte da demanda humana com pescado produzido em cativeiro estes empreendimentos ajudam a minimizar o problema da pesca predatória em áreas costeiras e principalmente a pesca excessiva em alto mar mitigando assim o esgotamento dos estoques pesqueiros naturais. Este tipo de atividade também potencializa a economia das áreas litorâneas pois aumenta a demanda por mão de obra provenientes de comunidades carentes e desassistidas que vivem do mar. Da mesma forma estimula a pesquisa de conhecimento para melhor integrar o desenvolvimento humano em áreas marinhas potencializando e preservando o uso dos recursos naturais.

Torna-se questão de responsabilidade ambiental e social considerar os custos ambientais para manter o equilíbrio natural dos ecossistemas onde estão inseridas as fazendas marinhas. O risco de haver a perda destes serviços e mesmo prejuízos irrecuperáveis do meio ambiente é real e efetivo, caso não se respeite os investimentos e cuidados necessários. Se o empreendedor quiser perpetuar seus ganhos será fundamental incorporar os custos da prevenção e da mitigação dos impactos ambientais decorrentes da atividade. Conseguir identificar e caracterizar as possíveis cadeias de efeitos colaterais negativos bem como impedir a sua progressão, trata-se de uma questão de inteligência além de visão de futuro para seu negócio prosperar. A capacidade de incorporar amigavelmente a produtividade das fazendas marinhas no ciclo natural local em uma relação simbiótica representa aproveitar de maneira equilibrada os serviços ambientais oferecidos.

Fonte: http://doctoradoacuicultura.uach.cl/admision-2021-doctorado-en-ciencias-de-la-acuicultura-uach-realiza-ultimo-llamado-para-su-proceso-de-postulaciones/
Quais seriam então as principais preocupações ambientais e sociais decorrentes da atividade de produção de pescado recurso marinhos em cativeiro? A seguir estão descritos alguns dos problemas encontrados na produção das fazendas marinhas:

Fonte: https://jardimanimal.com.br/o-mexilhao-e-as-suas-tecnicas-de-criacao/
- A alta escala e concentração de indivíduos confinados exige o lançamento maciço de alimentos no interior de cercados vazados, onde as correntezas espalham a pluma de nutrientes para locais diversos promovendo a eutrofização (contaminação por matéria orgânica) das águas do entorno. Como efeito colateral da matéria orgânica que funciona como adubo, acontece à floração exagerada de algas onde algumas delas podem inclusive produzir toxinas como é o caso do fenômeno da maré vermelha.
- A alta densidade do pescado confinado gera a concentração de fezes que se depositam no leito submarino. O excesso produz uma decomposição deficiente e anormal, desequilibrando o processo de digestão promovido pela natureza.
- O confinamento exagerado de indivíduos favorece o surgimento de doenças oportunistas e seu espalhamento pode inclusive disseminar para o meio exterior do confinamento, o que impacta a fauna autóctone.
- Para combater as doenças disseminadas em cativeiros densamente ocupados ocorre o lançamento de doses concentradas de pesticidas e fármacos cuja composição química pode promover impactos nas águas naturais do entorno.
- A fuga em massa de indivíduos acontece com certa frequência. Existe o risco de colapso ou mesmo de rompimento das células de confinamento devido a fenômenos oceanográficos extremos e mesmo deficiência na manutenção das estruturas de confinamento. No caso de peixes e crustáceos que tem locomoção própria, muitos deles não naturais da região, o potencial risco de desequilíbrio na cadeia alimentar do sistema natural local é uma possibilidade real. Tal risco pode inclusive afetar a pesca artesanal de muitas comunidades de pescadores circunvizinhas.
- Contudo nem tudo é negativo. No caso da cultura de moluscos e algas, esta tem uma pegada ecológica bem maior. Em geral é feita com mão de obra de pescadores locais, em escala muito menor do que a de peixes, e mais amigável com a natureza promovendo processos de simbiose mais explícitos. Talvez o maior cuidado seja para situações quando ocorre o cultivo de espécies exóticas não existentes na área de cultivo. Caso ocorra uma disseminação no ambiente do entorno pode provocar desequilíbrios ambientais desconhecidos.

Fonte: Foto Captura de tela de ‘Panorama: Salmon Fishing Exposed’, BBC
De qualquer maneira a maricultura não deixa de ser um importante movimento do homem em direção do desenvolvimento sustentável de ecossistemas costeiros. Além de promover a diminuição da pressão humana sobre espécies selvagens que já se encontram bastante estressadas, reduz-se a perda de ecossistemas naturais. Trata-se de outro tipo de uso do espaço costeiro, mais natural do que a agressiva expansão urbana, pois consegue preservar a identidade funcional e ambiental de muitos trechos do litoral com usos mais amigáveis. Contudo é importante que se continue a aportar esforços e investimentos para que o homem conheça e aprenda a conviver com a natureza do seu entorno através da pesquisa e da ciência.
David Zee
Bibliografia
Danson,T.; D’Orso,M.. OCEANA: our endangered Oceans and what we can do to save them. Rodale, 2011. 304p.