A Copa dos Oceanos, parte 3: As Américas

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Se existe um continente onde a maior parte dos oceanos se manifesta, esse continente é a América. Banhadas pelo Atlântico, Pacífico, Ártico e Antártico, as Américas abrigam algumas das maiores diversidades culturais e ambientais do planeta. No Novo Mundo e ao longo de milhares de anos, povos indígenas aprenderam a compreender os ciclos das marés, os movimentos dos peixes, a influência dos ventos e o comportamento das correntes oceânicas. Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, os oceanos já faziam parte da identidade dos povos americanos.

Américas, Novo Mundo, cercada pelos oceanos Pacífico, Atlântico, Ártico e Antártico. Fonte: https://www.istockphoto.com/br/search/2/image-film?phrase=mapa+continente

Dos esquimós do norte Ártico às civilizações mesoamericanas e aos povos indígenas da América do Sul, o mar era fonte de alimento, transporte, espiritualidade e conhecimento. Hoje, os países americanos que disputam a Copa do Mundo carregam consigo diferentes histórias marítimas, e todos compartilham uma mesma responsabilidade: proteger os oceanos que ajudaram a construir suas nações.

Pesquisa indica navegação no Ártico há 4500 anos por povos antigos. Fonte: https://www.tupi.fm/entretenimento/pesquisa-revela-que-os-paleo-inuites-navegavam-pelos-mares-do-artico-ha-4-500-anos/

México, Canadá e Estados Unidos sediarão a Copa do Mundo de 2026. Muito antes da formação desses países, povos indígenas costeiros já mantinham uma profunda relação com o mar. As águas eram vistas como fonte de vida e equilíbrio, e inúmeras tradições culturais nasceram dessa convivência. No México, antigas civilizações associavam elementos marinhos às suas crenças e cosmologias. O oceano fazia parte da compreensão do mundo e da relação entre seres humanos e natureza. Com a colonização e a industrialização, essa conexão ancestral foi gradualmente substituída por modelos econômicos voltados para exploração intensiva dos recursos naturais.

Mergulhador observa um grande cardume nas águas da costa da Califórnia, Estados Unidos. A cena evidencia a riqueza dos ecossistemas marinhos do Pacífico Norte e reforça a importância da conservação oceânica diante dos desafios impostos pela poluição, pela sobrepesca e pelas mudanças. Fonte: https://globorural.globo.com/Colunas/planeta-bicho/noticia/2014/02/fotografo-encara-tornado-de-peixes-durante-mergulho-no-mexico.html

Hoje, Estados Unidos e Canadá figuram entre as nações mais desenvolvidas do planeta e possuem alguns dos sistemas científicos e tecnológicos mais avançados do mundo. Entretanto, o desenvolvimento trouxe outros desafios. Poluição plástica, contaminação costeira, degradação de habitats marinhos e os impactos das mudanças climáticas continuam afetando as regiões costeiras.
No México, o crescimento do turismo impulsionou a economia, mas também aumentou a pressão sobre recifes, manguezais e ecossistemas costeiros. O desafio para essas nações não é apenas desenvolver novas tecnologias, mas utilizar todo esse conhecimento para restaurar a relação harmoniosa que existia entre sociedade e oceano. Afinal, os povos originários já compreendiam
uma verdade fundamental: não existe prosperidade duradoura sem mares saudáveis.

Esculturas do Museu Subaquático de Arte (MUSA), localizado entre Cancún e Isla Mujeres, no México. Criado para
reduzir a pressão turística sobre recifes naturais, o projeto integra arte, turismo e conservação marinha, promovendo a
colonização por corais e outros organismos recifais. Fonte: https://share.google/IFUhXqJBrArLXln1l

Poucas regiões do planeta possuem uma ligação tão íntima com o mar quanto o Caribe. Ali, o oceano está presente em cada aspecto da vida cotidiana: na cultura, na alimentação, na música, na economia e na própria identidade dos povos. As ilhas caribenhas foram pontos de suporte das grandes rotas
marítimas, encontros culturais, histórias de resistência e também das famosas lendas envolvendo corsários e piratas que navegaram por aquelas águas durante séculos. Mas muito antes dessas histórias, povos indígenas já habitavam a região e compreendiam profundamente a dinâmica dos mares caribenhos.


Entre os países caribenhos presentes nesta jornada, o Haiti representa um dos maiores símbolos de resistência da história moderna. Primeira república negra independente do mundo, o país enfrentou séculos de dificuldades econômicas, instabilidades políticas e desastres naturais. Mesmo diante desses desafios, o mar continua representando esperança para milhões de haitianos. A pesca
artesanal, os recursos costeiros e os projetos de desenvolvimento sustentável ligados aos oceanos oferecem oportunidades importantes para o futuro. O Haiti nos lembra que a relação com o mar não é apenas uma questão econômica. É também uma questão de reconstrução, dignidade e esperança.

Naufrágio recoberto por organismos marinhos nas águas de Curaçao. Ao longo dos anos, diversas estruturas
submersas passaram a atuar como recifes artificiais, oferecendo abrigo para peixes, corais e invertebrados. Esses
ambientes demonstram como o oceano pode transformar vestígios da atividade humana em novos espaços de
biodiversidade. Fonte: https://www.curacao.com/pt/activity/tug-boat

Se o Haiti simboliza resistência, Curaçao simboliza conexão. A pequena ilha caribenha, uma das menores nações associadas à Copa do Mundo, construiu sua história ao redor do mar. Durante séculos, o oceano moldou sua cultura, sua alimentação, suas tradições e seu modo de vida. A pesca, a navegação e a convivência com os recifes fazem parte da identidade local. Em Curaçao, o mar
não aparece apenas na paisagem. Ele está presente na memória coletiva de seu povo. Cada geração aprendeu a respeitar e valorizar os recursos marinhos, criando uma relação que pode ser descrita como uma verdadeira história de amor com o oceano.

Tartaruga-gigante nas Ilhas Galápagos, Equador. O arquipélago abriga algumas das espécies mais emblemáticas do planeta e tornou-se um símbolo mundial da conservação da biodiversidade. A interação entre correntes oceânicas, ecossistemas insulares e políticas de proteção ambiental transformou Galápagos em uma referência internacional para a pesquisa e preservação da vida marinha. Fonte: https://share.google/veT4f167iiqWr49FX


Ao sul do continente, o oceano continua sendo um dos principais elementos que conectam diferentes culturas e ecossistemas. Na Argentina, o Atlântico Sul moldou a vida de comunidades costeiras e ajudou a construir uma forte tradição ligada à pesca e aos recursos marinhos. As águas frias da Patagônia sustentam uma biodiversidade extraordinária que influencia toda a região. No Equador, o Oceano Pacífico e a proximidade das Ilhas Galápagos ajudaram a transformar o país em um dos maiores símbolos mundiais de conservação da biodiversidade. A influência das correntes oceânicas cria condições únicas para a vida marinha. No Uruguai, o Atlântico faz parte da identidade nacional. Das praias às atividades portuárias, o oceano permanece como importante motor econômico e cultural. Em todos esses países, o mar continua sendo uma ponte entre passado e futuro. Mas nossa viagem termina em um lugar especial. Um país onde o oceano possui dimensões continentais. Um país onde o futuro da Economia Azul pode influenciar não apenas uma região, mas todo o planeta.

Amazônia Azul corresponde à extensa área marítima sob jurisdição brasileira, reunindo recursos naturais,
biodiversidade, rotas de navegação, pesquisa científica e atividades econômicas estratégicas para o desenvolvimento do país. Fonte: https://share.google/SmMF9ga494mvhRn0R

Chegamos ao Brasil. Uma nação com mais de sete mil quilômetros de litoral, banhada por um oceano que moldou sua história, sua economia, sua cultura e sua biodiversidade. Mas existe um patrimônio que muitos brasileiros ainda estão começando a descobrir: a Amazônia Azul. Com uma área marítima de milhões de quilômetros quadrados, a Amazônia Azul abriga uma extraordinária riqueza biológica e econômica. Seus ecossistemas sustentam atividades pesqueiras, turismo, transporte marítimo, produção de alimentos, biotecnologia, pesquisa científica e recursos energéticos. Sabemos da importância econômica do pré-sal e do papel estratégico que ele desempenha para o país. Entretanto
o futuro do Brasil não pode ser medido apenas pelo petróleo. O verdadeiro potencial da Amazônia Azul também está na pesca sustentável, na maricultura, no cultivo de algas, na descoberta de novos medicamentos, nos cosméticos de origem marinha, na mineração, na conservação dos recifes e na valorização dos ecossistemas costeiros. A Economia Azul representa uma oportunidade única de crescimento econômico aliado à preservação ambiental.

Embarcação tradicional caiçara utilizada na pesca artesanal. Ao longo de séculos, comunidades costeiras brasileiras
construíram uma relação de respeito e dependência com o oceano, transformando o mar em fonte de sustento, cultura
e identidade. Fonte: https://share.google/A3uvtANlNxNTsYTEk

Na Copa do Mundo, todas as seleções sonham com a mesma conquista: levantar a taça. Mas existe uma conquista ainda maior que pertence a todos nós. A preservação dos oceanos. Cada continente visitado nesta série de 3 capítulos revelou uma história diferente. Algumas foram marcadas por
descobertas, outras por desafios, algumas por prosperidade e outras por sofrimento. Mas todas possuíam algo em comum, o mar. Os oceanos guardam a memória da humanidade. Foram testemunhas de migrações, trocas culturais, avanços científicos, conflitos e reencontros. Eles contam nossa história e por isso merecem nosso respeito. Que possamos torcer por nossas seleções nos
gramados, mas também torcer pelos oceanos que tornam a vida possível. Porque, no fim das contas, existe uma única vitória capaz de beneficiar todas as nações: a construção de um futuro em que desenvolvimento, conhecimento e conservação caminhem lado a lado. Essa é a verdadeira coroação que devemos buscar. E essa é uma taça que pertence a toda a humanidade.

Defesa e garantia da Amazonia Azul: Marinha do Brasil.
Fonte: https://share.google/YTMI75oBcKQtzAQdi

Quando o apito final da Copa do Mundo soar, permanecerá uma verdade muito mais antiga do que o próprio futebol: os oceanos continuam sendo o grande elo entre as nações. Eles regulam o clima, sustentam a biodiversidade, alimentam milhões de pessoas e guardam parte significativa da história humana. Conhecer a relação entre cada país e o mar é também compreender que a conservação dos oceanos é uma responsabilidade que deve ser compartilhada por todo o planeta.

Escrito por: Thais Fonseca Posse


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


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ICMBIO. Banco dos Abrolhos e conservação marinha. Brasília, DF. Disponível em: ICMBio. Acesso em: 2 jul. 2026.


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SUMAILA, U. Rashid et al. Blue Economy and Sustainable Development. Amsterdam: Elsevier, 2021.


CARVALHO, Ítalo Braga Castro. Economia Azul: oportunidades para o
desenvolvimento sustentável no Brasil. Rio de Janeiro: Autografia, 2022.

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