A urgência das adaptações climáticas para cidades costeiras

Square

Em março de 2025, fortes chuvas em Angra dos Reis causaram deslizamentos e inundações que deixaram mortos, feridos e centenas de desabrigados. No ano anterior, o estado do Rio Grande do Sul enfrentou enchentes históricas, com cidades inteiras submersas e prejuízos milionários. Esses desastres, que parecem cada vez mais frequentes e intensos, não são apenas resultado da chuva excessiva ou da má gestão urbana. Eles estão também conectados com o comportamento dos oceanos que regulam o clima do planeta.

Os oceanos exercem uma influência direta sobre o clima e o comportamento das zonas costeiras. Essa conexão tem se intensificado com o avanço das mudanças climáticas. Um dos fatores de risco é o aumento do nível do mar, impulsionado pelo derretimento das calotas polares e pela expansão térmica da água devido ao aquecimento global. Em 2024, por exemplo, registros da NASA mostraram que o nível do mar subiu 0,59 centímetros, ultrapassando a média histórica e colocando em risco cidades litorâneas brasileiras como Recife, Santos e Rio de Janeiro. Esse aumento favorece a ocorrência de inundações mais frequentes e intensas, especialmente quando combinado com outro fator importante, o aquecimento das águas superficiais. Esse aquecimento torna as tempestades mais fortes e recorrentes, intensificando ressacas e eventos de maré alta que causam a erosão costeira e destruição de infraestruturas urbanas, como visto em Porto Alegre em 2024 e Angra dos Reis em 2025.

Além disso, a destruição de ecossistemas naturais como manguezais e recifes de coral, agrava ainda mais o problema. Esses ambientes funcionam como barreiras naturais, absorvendo parte da energia das ondas e diminuindo o impacto das tempestades. Quando esses ecossistemas são degradados pela poluição, construções irregulares ou desmatamento, a vulnerabilidade das comunidades litorâneas aumenta drasticamente. Os impactos socioeconômicos desses eventos são significativos: enchentes constantes afetam o turismo, a pesca e o comércio, além de favorecer a propagação de doenças em áreas alagadas e precarizadas pela falta de infraestrutura urbana adequada. Os oceanos portanto, não são apenas cenários mas, protagonistas da crise climática que afeta a vida de milhões de pessoas nas regiões costeiras.

As mudanças climáticas estão no centro da intensificação dos desastres costeiros. O aumento da temperatura global, causado principalmente pela emissão de gases de efeito estufa, tem impacto direto sobre os oceanos, acelerando a elevação do nível do mar, alterando padrões de circulação atmosférica e tornando os eventos climáticos mais agressivos. Esse aquecimento intensifica a evaporação e a energia disponível para formar tempestades, o que contribui para chuvas mais intensas e prolongadas. Quando combinadas com o mar mais quente e elevado, essas chuvas aumentam o risco de inundações e deslizamentos em regiões costeiras.

Figura 4. Ressacas mais frequentes e agressivas em cidades costeiras. Fonte: https://diariodorio.com/ressaca-pode-provocar-ondas-de-ate-3-metros-nas-praias-do-rio-nesta-semana/

Segundo o IPCC, o aumento do nível do mar pode ultrapassar 1 metro até o fim do século em cenários de altas emissões, tornando regiões como o litoral nordestino e a Baixada Santista áreas de risco permanente. Mesmo em cenários mais otimistas, o recuo de linhas de costa e a perda de território serão inevitáveis caso não haja medidas de adaptação e políticas públicas adequadas ao desafio que se aproxima. O que antes era considerado um fenômeno raro, como marés excepcionalmente altas, tende a se tornar comum. Essa nova “normalidade climática” exige planejamento, investimento e respeito à ciência, caso contrário os desastres que hoje chamamos de exceção poderão se tornar rotina

Figura 5: Soluções de adaptação baseadas na natureza. Fonte: https://www.wribrasil.org.br/noticias/como-expandir-solucoes-baseadas-na-natureza-para-adaptacao

Apesar dos alertas científicos e da recorrência dos desastres, a resposta do poder público às ameaças costeiras tem sido marcada pela lentidão, falta de planejamento e descontinuidade de políticas públicas. Muitos planos de ordenamento territorial ignoram a dinâmica natural do oceano, permitindo construções em áreas de risco e degradando ecossistemas protetores como manguezais e restingas. O Brasil já possui ferramentas técnicas e institucionais para enfrentar esses desafios como o Zoneamento Ecológico-Econômico Costeiro e o Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima. No entanto, esses instrumentos raramente são implementados de forma efetiva, seja por falta de vontade política, recursos financeiros ou coordenação entre os níveis de governo. Além disso, a fiscalização ambiental é frequentemente enfraquecida, com cortes de verbas, desmonte de órgãos técnicos e influência de interesses econômicos locais. Isso dificulta a prevenção de desastres e a mitigação dos impactos em comunidades já fragilizadas. Essa negligência não é apenas uma falha administrativa, ela amplia desigualdades sociais, expondo populações pobres e periféricas a riscos que poderiam ser evitados com medidas simples, como mapeamento de áreas suscetíveis, infraestrutura adaptada e restauração ambiental. Em vez disso, a resposta mais comum ainda é a emergência reativa, com custos elevadíssimos e resultados efêmeros.

Figura 6: Impactos sociais pela falta de medidas preventivas. Fonte: https://outraspalavras.net/outrasmidias/o-naufragio-das-cidades-costeiras/

As enchentes e desastres costeiros não são apenas consequências naturais, mas resultados de um desequilíbrio agravado pela ação humana e pela omissão política. A influência dos oceanos sobre esses eventos é clara, mas também é evidente que há conhecimento técnico e científico suficiente para mitigar seus impactos. O desafio está em transformar esse conhecimento em políticas públicas eficazes, planejamento urbano responsável e proteção ambiental real. Sem isso, o que hoje são tragédias pontuais que tendem a se tornar parte do cotidiano das cidades costeiras brasileiras.

Escrito por Clara Adriano

Referências: 

https://www.diariodolitoral.com.br/diario-mais/nivel-do-mar-atinge-recorde-em-2024-e-pode-gerar-impactos-devastadores/192683

 https://www.nationalgeographicbrasil.com/meio-ambiente/2020/03/desequilibrio-dos-oceanos-e-ao-mesmo-tempo-causa-e-efeito-da-crise-climatica

 https://cetesb.sp.gov.br/veicular/wp-content/uploads/sites/36/2014/08/3_artigo_cgee_zona_costeira.pdf
 https://oics.cgee.org.br/pt/-/a-degrada%C3%A7%C3%A3o-costeira-e-seus-impactos-nas-cidades-brasileiras

 https://news.scientificsociety.net/2025/01/14/impactos-climaticos-em-ecossistemas-costeiros-um-alerta-sobre-a-vulnerabilidade-e-sustentabilidade

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *