Como El Niño e La Niña interferem na sobrevivência das tartarugas

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O fenômeno climático El Niño e suas interações com as mudanças climáticas globais têm gerado impactos significativos nas condições ambientais e físicas dos oceanos. Tal fato afeta o ciclo de vida das tartarugas marinhas e fluviais. 

Vamos entender como os fenômenos do El Niño e La Niña, influenciam a reprodução das tartarugas (Quelônios), com ênfase nas espécies vulneráveis, como a tartarugas-de-couro (Dermochelys coriacea).  O artigo de Tomillo et al. (2020) aborda os principais efeitos de eventos climáticos extremos sobre os processos de nidificação, eclosão e sobrevivência, destacando a necessidade de monitoramento contínuo e adaptação das estratégias de conservação.

Figura1: Tartaruga de couro ameaçada de extinção. Fonte: https://tamar.org.br/tartaruga.php?cod=22

O fenômeno climático El Niño, que provoca o aquecimento das águas do Pacífico Tropical, e a sua OscilaçãoENSO (La Niña) têm implicações profundas nos ecossistemas costeiros e marinhos, afetando diversas espécies, incluindo as tartarugas marinhas. Tais efeitos são particularmente evidentes em áreas tropicais e subtropicais, onde as condições ambientais são determinantes para o sucesso da reprodução das tartarugas. O aumento da temperatura, mudanças nos padrões de precipitação e nos níveis dos rios são fatores que podem afetar negativamente a sobrevivência de ovos e filhotes, reduzindo o sucesso reprodutivo das tartarugas.

O fenômeno El Niño está associado com as condições mais secas, que podem resultar em uma diminuição da disponibilidade de áreas adequadas para a nidificação das tartarugas nas praias. Além disso, o aumento da temperatura nas areias pode afetar negativamente a eclosão, aumentando a mortalidade dos ovos e filhotes.

Figura 2: Tartaruga marinha oliva em desova. Fonte: https://www.tamar.org.br/noticia1.php?cod=902

O El Niño também altera os padrões de precipitação causando secas em regiões como a Amazônia. A diminuição das chuvas afeta diretamente os níveis dos rios que são fundamentais para o sucesso reprodutivo das tartarugas da família Podocnemidida e tartaruga fluvial amazônica. A alteração no pulso de inundação pode inundar prematuramente os ninhos ou alterar a sincronização da reprodução. O aumento do nível das águas, associado a eventos de La Niña, pode inundar os ninhos das tartarugas, resultando na mortalidade de ovos e filhotes. Por outro lado, a seca extrema provocada pelo El Niño pode reduzir a disponibilidade de áreas adequadas para nidificação, afetando diretamente o sucesso reprodutivo.

Figura 3: Tartaruga amazônica da família Podocnemididae. Fonte:https://t3.ftcdn.net/jpg/04/71/13/08/360_F_471130880_DgwCzUGR6Uc5gN84jlFEM4qAwz6pcNcf.jpg

As condições climáticas alteradas afetam o micro-habitat de desova das tartarugas, que depende de fatores como temperatura, umidade e tipo de solo. A elevação da temperatura do solo pode prejudicar a incubação dos ovos, uma vez que temperaturas muito altas podem aumentar a mortalidade dos embriões. Além disso, mudanças na geomorfologia das praias e nos padrões de inundação impactam a escolha dos locais de nidificação, prejudicando a sobrevivência dos ovos.

 Com a tendência do aquecimento global, espera-se que eventos de El Niño se tornem mais frequentes e intensos. O aumento na frequência de eventos climáticos extremos representa um risco crescente para as tartarugas, uma vez que as condições mais severas podem alterar os padrões de eclosão e reduzir a taxa de sobrevivência das espécies ao longo do tempo.

Figura 4: Tartaruga Verde em processo de desova. Fonte: https://www.novojornal.co.ao/sociedade/interior/projecto-kitabanga-alerta-para-risco-de-extincao–quase-4500-tartarugas-marinhas-morreram-em-menos-de-8-meses-113662.html

O aumento da temperatura das águas do oceano, característica do El Niño, afeta diretamente a distribuição das presas das tartarugas, alterando seu comportamento migratório. A modificação nas correntes oceânicas pode forçar as tartarugas a migrar para áreas menos adequadas, comprometendo sua alimentação e sobrevivência.

 As altas temperaturas do solo, causadas por eventos de El Niño, podem alterar o equilíbrio de sexos das tartarugas-de-couro, uma vez que a determinação do sexo dos filhotes é influenciada pela temperatura do ambiente. O aumento das temperaturas pode resultar em uma proporção excessiva de fêmeas, afetando a dinâmica populacional da espécie.

As tartarugas-de-couro que nidificam em praias específicas apresentam uma característica única: elas não podem migrar para outras praias, uma vez que as características geomorfológicas dessa área e as correntes oceânicas offshore são essenciais para a sobrevivência dos filhotes. A alteração nas condições climáticas pode tornar praias tradicionais de desova dessa espécie, inadequada para a nidificação, sem que haja opções de migração para áreas alternativas.

Figura 5: Tartaruga de couro em desova. Fonte: https://marsemfim.com.br/tartaruga-de-couro-conheca-uma-boa-novidade/

As projeções climáticas indicam que os eventos de El Niño podem se tornar ainda mais frequentes ao longo do século 21 devido ao aquecimento global. O aumento da mortalidade de ovos e filhotes, combinado com a diminuição das áreas adequadas para nidificação, representa um desafio significativo para a conservação das tartarugas. O monitoramento contínuo e a adaptação das estratégias de manejo são essenciais para mitigar os impactos das mudanças climáticas.

Concluindo, o fenômeno El Niño, juntamente com as mudanças climáticas globais afetam negativamente a sobrevivência das tartarugas marinhas, especialmente no que diz respeito à reprodução, sobrevida dos ovos e filhotes, bem como o sucesso de eclosão. O aumento da frequência de eventos climáticos extremos, como o El Niño, é uma ameaça real para as tartarugas ao longo do tempo, afetando diretamente as populações e a biodiversidade marinha. Estratégias de conservação adaptativas são cruciais para proteger essas espécies vulneráveis, levando em consideração as alterações nos padrões climáticos e ambientais. Faça a sua parte, apoie a preservação dos quelônios e os programas de conservação da fauna marinha.

Figura 6: Tartaruga verde. Fonte: https://meusanimais.com.br/perigoso-efeito-das-mudancas-climaticas-sobre-as-tartarugas/

Autoria: Gabrielle Silva Castro 

Referências bibliográficas:

https://drexel.edu/news/archive/2012/May/El-Nino-Climate-Change-Threaten-Leatherback-Sea-Turtles 

https://link.springer.com/article/10.1007/s10584-020-02658-w

SILVA, D. F.; FERREIRA JÚNIOR, P. D.; REIS, E. S.; CANTARELLI, V. H. Eventos climáticos extremos relacionados ao ENSO e o sucesso reprodutivo da tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) na Reserva Biológica do Rio Trombetas. Relatório preparado para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio. Manaus: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), maio 2016.DOI:10.13140/RG.2.2.12142.20806

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