O fenômeno climático El Niño e suas interações com as mudanças climáticas globais têm gerado impactos significativos nas condições ambientais e físicas dos oceanos. Tal fato afeta o ciclo de vida das tartarugas marinhas e fluviais.
Vamos entender como os fenômenos do El Niño e La Niña, influenciam a reprodução das tartarugas (Quelônios), com ênfase nas espécies vulneráveis, como a tartarugas-de-couro (Dermochelys coriacea). O artigo de Tomillo et al. (2020) aborda os principais efeitos de eventos climáticos extremos sobre os processos de nidificação, eclosão e sobrevivência, destacando a necessidade de monitoramento contínuo e adaptação das estratégias de conservação.

O fenômeno climático El Niño, que provoca o aquecimento das águas do Pacífico Tropical, e a sua Oscilação–ENSO (La Niña) têm implicações profundas nos ecossistemas costeiros e marinhos, afetando diversas espécies, incluindo as tartarugas marinhas. Tais efeitos são particularmente evidentes em áreas tropicais e subtropicais, onde as condições ambientais são determinantes para o sucesso da reprodução das tartarugas. O aumento da temperatura, mudanças nos padrões de precipitação e nos níveis dos rios são fatores que podem afetar negativamente a sobrevivência de ovos e filhotes, reduzindo o sucesso reprodutivo das tartarugas.
O fenômeno El Niño está associado com as condições mais secas, que podem resultar em uma diminuição da disponibilidade de áreas adequadas para a nidificação das tartarugas nas praias. Além disso, o aumento da temperatura nas areias pode afetar negativamente a eclosão, aumentando a mortalidade dos ovos e filhotes.

O El Niño também altera os padrões de precipitação causando secas em regiões como a Amazônia. A diminuição das chuvas afeta diretamente os níveis dos rios que são fundamentais para o sucesso reprodutivo das tartarugas da família Podocnemidida e tartaruga fluvial amazônica. A alteração no pulso de inundação pode inundar prematuramente os ninhos ou alterar a sincronização da reprodução. O aumento do nível das águas, associado a eventos de La Niña, pode inundar os ninhos das tartarugas, resultando na mortalidade de ovos e filhotes. Por outro lado, a seca extrema provocada pelo El Niño pode reduzir a disponibilidade de áreas adequadas para nidificação, afetando diretamente o sucesso reprodutivo.

As condições climáticas alteradas afetam o micro-habitat de desova das tartarugas, que depende de fatores como temperatura, umidade e tipo de solo. A elevação da temperatura do solo pode prejudicar a incubação dos ovos, uma vez que temperaturas muito altas podem aumentar a mortalidade dos embriões. Além disso, mudanças na geomorfologia das praias e nos padrões de inundação impactam a escolha dos locais de nidificação, prejudicando a sobrevivência dos ovos.
Com a tendência do aquecimento global, espera-se que eventos de El Niño se tornem mais frequentes e intensos. O aumento na frequência de eventos climáticos extremos representa um risco crescente para as tartarugas, uma vez que as condições mais severas podem alterar os padrões de eclosão e reduzir a taxa de sobrevivência das espécies ao longo do tempo.

O aumento da temperatura das águas do oceano, característica do El Niño, afeta diretamente a distribuição das presas das tartarugas, alterando seu comportamento migratório. A modificação nas correntes oceânicas pode forçar as tartarugas a migrar para áreas menos adequadas, comprometendo sua alimentação e sobrevivência.
As altas temperaturas do solo, causadas por eventos de El Niño, podem alterar o equilíbrio de sexos das tartarugas-de-couro, uma vez que a determinação do sexo dos filhotes é influenciada pela temperatura do ambiente. O aumento das temperaturas pode resultar em uma proporção excessiva de fêmeas, afetando a dinâmica populacional da espécie.
As tartarugas-de-couro que nidificam em praias específicas apresentam uma característica única: elas não podem migrar para outras praias, uma vez que as características geomorfológicas dessa área e as correntes oceânicas offshore são essenciais para a sobrevivência dos filhotes. A alteração nas condições climáticas pode tornar praias tradicionais de desova dessa espécie, inadequada para a nidificação, sem que haja opções de migração para áreas alternativas.

As projeções climáticas indicam que os eventos de El Niño podem se tornar ainda mais frequentes ao longo do século 21 devido ao aquecimento global. O aumento da mortalidade de ovos e filhotes, combinado com a diminuição das áreas adequadas para nidificação, representa um desafio significativo para a conservação das tartarugas. O monitoramento contínuo e a adaptação das estratégias de manejo são essenciais para mitigar os impactos das mudanças climáticas.
Concluindo, o fenômeno El Niño, juntamente com as mudanças climáticas globais afetam negativamente a sobrevivência das tartarugas marinhas, especialmente no que diz respeito à reprodução, sobrevida dos ovos e filhotes, bem como o sucesso de eclosão. O aumento da frequência de eventos climáticos extremos, como o El Niño, é uma ameaça real para as tartarugas ao longo do tempo, afetando diretamente as populações e a biodiversidade marinha. Estratégias de conservação adaptativas são cruciais para proteger essas espécies vulneráveis, levando em consideração as alterações nos padrões climáticos e ambientais. Faça a sua parte, apoie a preservação dos quelônios e os programas de conservação da fauna marinha.

Autoria: Gabrielle Silva Castro
Referências bibliográficas:
https://drexel.edu/news/archive/2012/May/El-Nino-Climate-Change-Threaten-Leatherback-Sea-Turtles
https://link.springer.com/article/10.1007/s10584-020-02658-w
SILVA, D. F.; FERREIRA JÚNIOR, P. D.; REIS, E. S.; CANTARELLI, V. H. Eventos climáticos extremos relacionados ao ENSO e o sucesso reprodutivo da tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa) na Reserva Biológica do Rio Trombetas. Relatório preparado para o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade – ICMBio. Manaus: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), maio 2016.DOI:10.13140/RG.2.2.12142.20806