Entendendo o efeito cascata das mudanças climáticas nos Oceanos

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Os ecossistemas terrestres e aquáticos estão conectados por uma complexa teia de interações entre organismos, clima, geologia e atividades humanas. Contudo, as mudanças climáticas têm acelerado e provocado alterações profundas nesses sistemas, gerando impactos que vão muito além do aumento da temperatura média global. Uma constatação emblemática é o derretimento acelerado das calotas polares, que não apenas contribui para o aumento do nível do mar como também interfere na salinidade dos oceanos. Esta por sua vez impacta diretamente nas correntes marinhas e, consequentemente, os padrões climáticos globais pois as correntes distribuem o calor pelo planeta. Esse tipo de sucessão de efeitos colaterais demonstra como uma mudança localizada pode desencadear transformações em cadeia para todos cantos do planeta.

Fonte: https://www.ihu.unisinos.br/categorias/625246-os-riscos-climaticos-do-aquecimento-dos-oceanos

O aumento da temperatura média das águas dos oceanos tem impacto direto no crescimento de alguns organismos marinhos de valor econômico. Tal fato foi observado, por exemplo, na lagosta americana (Homarus americanus) (Le Bris et al., 2017, citado por Weiskopf et al., 2020) bem como no bacalhau do Atlântico (Gadus morhua; Pershing et al., 2016) durante o aquecimento recente ocorrido no noroeste Atlântico.

 Do ponto de vista ecológico, as mudanças climáticas também afetam diretamente a distribuição geográfica de espécies, promovendo desequilíbrios ecológicos severos. Algumas espécies são forçadas a migrar para regiões mais frias enquanto outras, com menor capacidade de adaptação, correm riscos iminentes de extinção. Esse deslocamento e desaparecimento de espécies modifica cadeias alimentares e reduz a resiliência dos ecossistemas frente a novos distúrbios ambientais. Além disso, há um impacto significativo nas populações humanas, especialmente nas comunidades mais vulneráveis. O aumento de eventos extremos compromete a produção agrícola, eleva o risco de doenças e agrava desigualdades sociais. A seca em regiões já suscetíveis à escassez hídrica pode levar ao colapso de sistemas de abastecimento e gerar conflitos por recursos naturais. Da mesma forma, várias áreas costeiras enfrentam ameaças cada vez maiores devido à elevação do nível do mar e à intensificação das tempestades tropicais.

Migração de organismos marinhos. Fonte: https://news.un.org/pt/story/2020/09/1725592

As alterações climáticas criam um tipo de impacto mais complexo e perigoso: o chamado risco sistêmico. Esse tipo de risco acontece quando um problema climático desencadeia outros problemas em sucessão, afetando diferentes áreas ao mesmo tempo. Como na situação de uma seca intensa pode não só reduzir a oferta de água potável, mas também comprometer plantações, elevar os preços dos alimentos, causar falhas no fornecimento de energia elétrica e forçar o deslocamento de pessoas que vivem em áreas afetadas. Assim, um único evento pode deflagrar vários outros, gerando uma reação em cascata que atinge diversos setores da sociedade ao mesmo tempo. O mesmo acontece nos oceanos.

Nos últimos anos, o aumento das ondas de calor nos oceanos, somado a outros fatores ligados às mudanças climáticas, têm causado danos severos a habitats marinhos sensíveis, como recifes de corais, florestas de algas e prados de ervas marinhas. Quando esses ecossistemas são atingidos, os impactos não afetam apenas uma ou outra espécie, mas se espalham por toda a cadeia ecológica comprometendo o equilíbrio do sistema como um todo (ROGERS-BENNETT; CATTON, 2022). Um exemplo claro disso ocorreu no norte da Califórnia, onde uma onda de calor marinha causou o colapso da floresta de algas e da pesca recreativa do abalone vermelho, um molusco bastante valorizado. O evento não foi isolado. A perda de algas resultou em escassez de alimento do abalone que acabou desaparecendo, forçando esses animais a se moverem para regiões mais rasas e vulneráveis. A falta de comida afetou sua saúde, reprodução e crescimento, levando à morte de boa parte da população (ROGERS-BENNETT; CATTON, 2022).

Abalone vermelho da Califórnia. Fonte: https://images.app.goo.gl/ynYmJ6Sp65Ecbb6i7

As mudanças climáticas têm provocado transformações profundas nos ecossistemas, afetando a distribuição das espécies, suas interações ecológicas e aumentando o risco de extinção. Embora respostas evolutivas, como a adaptação genética, possam atuar como um amortecedor frente a esses impactos, há limitações importantes. A falta de variação genética, os custos adaptativos e a resposta desigual entre diferentes organismos tornam incerta a capacidade de sobrevivência de muitas populações diante dessas mudanças (De Meester et al., 2018). O aumento de CO₂ no ar pode, a princípio, acelerar o crescimento das plantas. Mas esse efeito nem sempre dura, já que a falta de nutrientes, como o nitrogênio, pode limitar esse crescimento com o tempo (Norby et al., 2010). Nos oceanos, o aquecimento pode dificultar a circulação de nutrientes, reduzindo a vida marinha (IPCC, 2013, citado por Weiskopf et al., 2020). Às mudanças climáticas estão alterando as relações entre espécies, criando novos tipos de ecossistemas que não existiam antes, com espécies invasoras aproveitando-se dessas condições para se espalhar, o que pode prejudicar as espécies nativas (Bradley et al., 2019).

A destruição de ecossistemas oceânicos impacta a sobrevivência dos organismos marinhos.  Fonte: https://www.aguasdoalgarve.pt/content/degelo-e-aquecimento-global

Além dos impactos na agricultura e no abastecimento urbano, as cidades costeiras enfrentam desafios adicionais devido à elevação do nível do mar e à intensificação de tempestades. Portanto, para proteger essas regiões, é fundamental investir em estratégias de adequação como a construção de barreiras físicas e a restauração de áreas naturais, como manguezais, que funcionam como verdadeiros “escudos” contra tempestades, reduzindo enchentes e erosão costeira. Enfrentar os efeitos das mudanças climáticas também requer um compromisso firme com à justiça social. Garantir acesso a recursos básicos, como água limpa, saúde adequada e educação, fortalece a capacidade das comunidades de resistir e se recuperar diante de desastres naturais. Além de salvar vidas, essas medidas contribuem para a proteção da economia local, que pode estar severamente comprometida pela perda de bens e infraestrutura. Por isso, adotar estratégias sustentáveis e preventivas, planejando intervenções em áreas vulneráveis, é essencial para proteger populações costeiras, reduzir danos econômicos e manter o funcionamento do comércio marítimo mesmo diante das mudanças climáticas.

Escrito por Gabrielle Da Silva Castro

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