Krill: Pequenos no Tamanho, Mas Grandes no Contexto Oceanográfico

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Krill é um termo que designa diversas espécies de crustáceos da ordem Euphausiacea. A origem do termo é nórdica e significa “pequeno peixe”. Essa ordem possui aproximadamente 86 espécies, abundantes em mares de todo o mundo. Sua numerosidade por vezes é constatada quando eles formam grandes cardumes, que podem chegar a mais de 6km de extensão e mudar a tonalidade da água.

Pequeno cardume de krill. Fonte: Paul Nicklen / Nat Geo Image Collection.

Os seus habitats estendem-se desde as águas cobertas de gelo que rodeiam o continente antártico até à orla sem gelo do Oceano Antártico, e desde zonas costeiras até águas remotas no meio do oceano. Apesar de muitas vezes ser descrito como plâncton, o krill se diferencia por atingir maiores tamanhos e por nadar contra correntezas. Eles nadam ativamente e vivem na coluna d’água, principalmente perto da superfície do oceano onde podem encontrar mais comida.

Na Antártida ocorrem sete espécies de eufausiáceos, mas a mais abundante delas é a Euphausia superba, conhecida popularmente como Krill da Antártida. Esta espécie possui cerca de 800 trilhões de indivíduos, o que equivale a 100 mil para cada humano. Os indivíduos desta espécie são também os que mais crescem, podendo chegar até 6cm.

Mapa da Antártida e das zonas de pesca de E. superba.  Fonte: Convenção para Conservação dos Recursos Vivos Marinhos Antárticos

O krill tem uma espécie de “cesta filtradora” muito eficiente formada pelas cerdas das seis patas toráxicas, e também possui cerdas especiais para raspar o gelo, o qual possui algas com as quais este se alimenta. Além de algas, o krill se alimenta de fitoplâncton, zooplâncton e salpas.

Euphausia superba.  Fonte: Russ Hopcroft – Censo da Vida Marinha Antártida

Alguns autores acreditam que o krill pode filtrar neve marinha, composta por agregados amorfos, de detritos orgânicos e inorgânicos e por microrganismos vivos, com alta atividade biológica. O krill também possui uma versatilidade alimentar impressionante: quando o alimento é escasso, ele pode diminuir de tamanho em vez de perder sua massa, característica que contribui para sua abundância.

Neve marinha. Fonte: News.sciencemag.org / Maille Lyons

O krill serve de alimento para animais como baleias, aves, peixes e tubarões-baleia, além de grande parte das espécies de pinguins, vários tipos de focas, medusas e lulas. A maioria destes predadores alimenta-se de outras espécies além do krill, mas conseguem comer até 390 bilhões de kg de krill por ano. Isto é mais do que toda a carne consumida pelos humanos. Sem o krill os animais que dependem dele poderiam estar extintos.

Um outro fator que denota sua importância na cadeia trófica dos organismos marinhos da Antártida é o fato de algumas das grandes baleias alimentarem-se quase que exclusivamente de krill, havendo declínio na reprodução quando estas não consomem a quantidade necessária de alimento.

A importância econômica do Krill tem sido evidente, visto que este é utilizado não somente para atrair predadores na pesca comercial, como também é um ingrediente primordial na culinária asiática. Para além da sua importância na indústria alimentícia, há estudos que comprovam sua eficácia como suplemento para saúde, pois possui ação anti-inflamatória, auxiliando no combate a doenças como diabetes, depressão, colesterol alto, síndrome do olho seco, artrite reumatoide, entre outras.

Outro poder interessante do krill foi descoberto recentemente em uma pesquisa realizada por cientistas da Coreia do Sul: realizou-se um ensaio clínico para investigar o efeito do óleo de krill nas ressacas de álcool. Constatou-se que as concentrações de álcool no sangue e no hálito foram reduzidas pelo consumo de óleo de krill, e os sintomas de sede e náuseas foram aliviados.

Além de seu importante papel ecológico, o krill é responsável pelo maior sumidouro de carbono do mundo, no Oceano Antártico. Como o krill se alimenta de fitoplâncton, animal que absorve parte do dióxido de carbono na fotossíntese, as fezes do krill passam a ser ricas em carbono. Como esses excrementos são mais densos, afundam carregando toneladas de carbono para o fundo dos oceanos todos os anos.

Barco de pesca de krill navegando entre icebergs. Fonte: Alamy Stock Photo

Infelizmente, com o derretimento das geleiras, ocasionado pelo aumento da temperatura dos oceanos, as algas que ficam retidas no gelo, alimento primordial do krill, não sobrevivem, diminuindo assim a sua oferta como alimento do krill. Outro fator extremamente relevante que tem comprometido a sobrevivência destes crustáceos é a presença de microplásticos nos oceanos, que podem vir a interferir na quantidade de carbono que estes e outros organismos conseguem absorver e reter nas profundezas do oceano.

Microplásticos. Fonte: Alessio Soggetti/Unsplash

Um estudo publicado pela Universidade de Tecnologia de Zhejiang, China, identificou 7 tipos de polímeros em espécie de Krill, dentre os quais havia predominância de polietileno, polipropileno e poliéster, composições que estão presentes em muitos produtos fabricados atualmente.

Por conta da Antártida apresentar cadeias alimentares curtas, é muito provável que ocorra a transferência de microplásticos dos krills para predadores maiores, o que compromete a cadeia alimentar como um todo. Nota-se, portanto, a grande influência que estes pequenos crustáceos possuem nos ecossistemas marinhos, além de serem cruciais para nós humanos em aspectos econômicos, biológicos e sociais.

Por isso é essencial a preservação destes animais, pois têm enorme importância na cadeia trófica dos organismos da Antártica. Sendo o microplástico uma ameaça para o krill e este tendo a pegada humana, o controle do uso e do descarte dos materiais plásticos evitando que chegue até os oceanos tem mais uma razão para ser considerada.

 

Autora: Izabel Avellar

 

 

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