Neve Marinha: abundância microscópica nas profundezas do mar

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A neve marinha tem origem nas águas superficiais dos oceanos, sendo composta principalmente por fitoplâncton e por micróbios. À medida que o material vai decantando, arrasta consigo outros detritos flutuantes, tais como, material fecal, animais mortos e em decomposição, sedimentos em suspensão e outros materiais orgânicos. Com o passar dos anos, este material deposita-se no leito marinho e pode vir a formar camadas com traços geológicos específicos em rochas.

Lama depositada no leito marinho. Fonte: NOAA Ocean Explorer.

O termo “neve” é utilizado porque as partículas de matéria orgânica se assemelham a flocos de neve quando se deslocam pela coluna de água, apesar de sua coloração não ser exatamente como a da neve, variando entre tons de marrom e verde. Esta primeira denominação aparece nos diários de bordo da Expedição Challenger em 1899. Mas o termo foi popularizado por William Beebe em 1934 quando explorou grandes profundidades a bordo de seu batiscafo.

Lado esquerdo: Beebe olhando para fora da porta de entrada da Batisfera (Fonte: Wildlife Conservation Society) / Lado direito: A batisfera e os cabos no convés mostram as duas pequenas janelas, uma para projetar luz e a outra para ver (Fonte: Ned Philibrick Crouch)

Cientistas de uma expedição realizada pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, NOAA, observaram a neve marinha na coluna de água e relataram que por vezes é concentrada, reduzindo a visibilidade, enquanto em outros locais é escassa. As diferenças na quantidade de neve marinha que precipita pela coluna de água, ou na densidade desta queda de neve, são influenciadas por muitos fatores. Dentre os principais destacam-se a produção de fitoplâncton nas águas superficiais, as taxas de consumo e a decomposição da matéria orgânica a caminho do fundo do mar além do carregamento deste material através das correntes (horizontais e verticais).

É importante destacar que não há provas de uma relação entre o tamanho e a profundidade que a neve marinha pode alcançar (M.H. Iversen et al), devendo-se considerar sempre informações sobre a composição, compacidade e densidade dos agregados a partir de análises ópticas in situ ou da amostragem direta de partículas e agregados.

Uma nuvem de neve marinha cai no fundo do mar ao largo do Golfo do México. Programa Okeanos Explorer da NOAA, Expedição ao Golfo do México, 2012.

As partículas de neve marinha se agregam e crescem à medida que afundam. Ao crescer agregam mais massa fazendo-as descer ainda mais depressa. No entanto, como a profundidade média dos oceanos é superior a 3.500m, a viagem até às profundezas pode demorar semanas. É provável que as estruturas depositadas no fundo do mar, como os naufrágios, fiquem cobertas pela neve marinha dentro de alguns anos. Dependendo do local, pode levar de dezenas a centenas de anos para que uma estrutura seja completamente coberta.

Naufrágio de 500 anos no mar Báltico. Fonte: https://www.brasilmergulho.com/naufragio-de-500-anos-aparece-no-fundo-do-mar-baltico/

A maioria dos animais que foram observados na expedição, desde os corais que se alimentam de materiais em suspensão até os pepinos-do-mar que se alimentam de depósitos, dependem diretamente da neve marinha. Outros animais, no topo da cadeia alimentar, alimentam-se de animais que consomem a neve marinha, enquanto a maioria dos habitantes das profundezas do mar dependem de alimentos que se precipitaram da camada superficial e que podem conter neve marinha. Assim, a caraterização da qualidade e do fornecimento deste alimento nos ajuda a compreender a distribuição, a biodiversidade e a função das comunidades das profundezas oceânicas que vêm sendo exploradas.

Os pepinos-do-mar obtêm alimento diretamente de partículas que caíram da coluna de água para o fundo do mar. Imagem do Gabinete de Exploração e Investigação Oceânica da NOAA, Golfo do México 2017.

Os cientistas possuem diferentes métodos de estudo que corroboram para um melhor estudo dessa matéria orgânica em suspensão. Alguns, utilizam instrumentos chamados de armadilhas de sedimentos variando desde a forma de um funil até para um aspecto tubular. À medida que a neve cai na coluna de água, estas armadilhas recolhem e preservam o material, permitindo aos cientistas examinar a qualidade e a quantidade de neve marinha que se precipita para o leito oceânico ao longo do tempo.

“Mesocosmos” experimentais criados pela investigadora Luisa Galgani e a sua equipe na ilha grega de Creta, para imitar e observar a neve marinha. “No mesocosmos, estamos manipulando um sistema natural”
Crédito: Luisa Galgani, Chiara Esposito, Paraskevi Pitta

Infelizmente, já foi confirmada a presença de microplásticos como fibras e fragmentos de poliamida, polietileno e politereftalato de etileno na neve marinha. Esta relação entre microplásticos e a matéria orgânica parece estar alterando o antigo processo de esfriamento do nosso planeta, visto que a neve marinha é o principal mecanismo pelo qual uma parte do carbono fixado fotossinteticamente é transportado para as águas mais profundas do mar, em um processo que pode auxiliar na diminuição das implicações causadas pelo efeito estufa. (RIEBESELL et al., 2007).

Além disto, a neve marinha ajuda os plásticos a afundarem, o que é preocupante, considerando que os cientistas mal começaram a desvendar a forma como estes materiais interferem nas redes alimentares profundas e nos ciclos naturais de carbono do oceano. Desta forma, denota-se a importância do contínuo estudo da neve marinha, que auxilia na compreensão do ambiente oceânico e o funcionamento da cadeia trófica deste ecossistema.

 

Autora: Izabel Avellar

 

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