Rio quebrou sua promessa de uma Olimpíada ambientalmente amigável

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Escrito e editado por Gabriela Brandão Barros Lima
A Olimpíada Rio 2016 acabou e vai deixar saudade. Brasileiros celebram um recorde na história do país: 19 medalhas no quadro geral, número até então inédito para o Brasil nos Jogos Olímpicos. Um evento histórico, com melhorias para o país. Porém, muitas das promessas não foram cumpridas para a Rio 2016, dentre elas as metas ambientais, que  também deveremos lembrar.
Diante da repercussão da reportagem feita pelo VICE News, em que David Zee deu entrevista, a equipe do Olhar Oceanográfico decidiu traduzi-la:

Rio quebrou sua promessa de uma Olimpíada ambientalmente amigável
Deveriam ser os jogos verdes para o planeta azul. Ao invés, cinco dias antes do início das olimpíadas do Rio de Janeiro, fica claro que as autoridades da cidade e do estado falharam em atender os ambiciosos compromissos ambientais feitos quando a cidade se candidatou para o evento em 2009.
“Os benefícios ambientais foram os mais divulgados e priorizados nos legados prometidos” disse David Zee, professor do curso de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. “No final, ficaram em último lugar”.
A promessa quebrada de maior destaque resulta na grande quantidade de esgoto não-tratado que ainda é jogado na Baía da Guanabara, onde as regatas da vela acontecerão.
Organizadores da Olimpíada disseram que 80% do esgoto produzido pelos nove milhões de habitantes que vivem em volta da Baía seriam tratados quando os jogos começassem. Os organizadores agora admitem que as estações de tratamento que foram implantadas tratam apenas 48% do esgoto, mas alguns dizem que na verdade é bem menos que isso.
Um número de velejadores estrangeiros reportaram doenças ou infecções após entrarem nas águas há muitos meses, e história de atletas sentindo-se desconfortáveis por competirem em águas com cheiro fétido continuam.
“Eles (atletas) deveriam ter total confiança que Rio 2016, o Comitê Olímpico Internacional e as autoridades brasileiras colocariam sua saúde em primeiro lugar”. Richard Budgett, o líder da equipe médica do Comitê Olímpico Internacional disse aos repórteres essa semana procurando diminuir seus receios: “Eu tenho certeza que a água terá qualidade suficiente para garantir uma competição segura”.
A Rio 2016 também fez um trabalho ruim ao não despoluir a lagoa de Jacarepaguá que cerca o Parque Olímpico. Planos para dragar o fundo da lagoa foram suspensos por um período depois que o Ministério Público Federal identificou irregularidades na licitação e em outros processos, como a falta de um estudo de impacto ambiental.
Em agosto do ano passado, no entanto, aproximadamente uma tonelada de peixes mortos foram removidos da lagoa. Os peixes morreram depois que ventos fortes perturbaram décadas de poluentes nos sedimentos que foram lançados no corpo d’água. Zee, o oceanógrafo, enfatiza que apesar de não haver eventos na lagoa, ela fica próxima à vila olímpica onde os atletas estão hospedados. “A decomposição do esgoto e de matéria orgânica pode produzir gás sulfídrico. Ventos fortes podem perturbar o fundo da lagoa e liberar este gás”, disse. “Ele pode causar náuseas e dores de cabeça, se a exposição for por um tempo longo”.
As autoridades do Rio também pisaram na bola quanto à promessa de plantar 24 milhões de mudas para compensar as emissões de carbono causadas pelos jogos. Até 30/07/2016 plantaram somente 5,5 milhões de mudas. O prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, negou que as Olimpíadas falharam em deixar um legado ambiental. Ele citou o campo de golfe, construído em uma área de proteção, como evidência das melhoras.
Paes também saldou o inacabado trabalho de despoluição da Baía da Guanabara como um sucesso relativo porque o tratamento de esgoto progrediu de 15% para 50%, mesmo que o objetivo de 80% esteja longe. “É um aumento de 30%”, ele disse, “você não pode dizer que nada foi feito”. Isto não foi suficiente para impressionar a bióloga Valerie Harwood que aconselhou os turistas: “Não coloquem suas cabeças dentro da água” depois de conhecer os resultados de um estudo sobre a água requerido pela Associated Press. “Esses níveis de vírus patogênicos é bastante desconhecido em águas superficiais nos EUA. Você nunca irá ver esse nível porque tratamos nossos esgotos”.
A inabilidade da Rio 2016 de honrar seus compromissos ambientais recorda as promessas não cumpridas da Copa do Mundo de 2014. De acordo com a Associação Nacional de Companhias de Transporte Urbano, somente 18% dos 125 projetos de mobilidade urbana prometidos para o torneio estão em operação. Mas isso também reflete decepções de outras Olimpíadas.
Os Jogos de Londres em 2012 reduziram as emissões durante a fase de construção e melhoraram a rede de transporte público. Mesmo assim, uma reportagem feita pela WWF-Reino Unido/BioRegional criticou a inabilidade de alcançar as metas de energias renováveis. Ambientalistas também alegaram que o trabalho de construção dos locais de jogos das Olimpíadas de Inverno em Sochi, Rússia, danificaram seriamente os ecossistemas naturais da região.
Também é verdade que as Olimpíadas do Rio trouxeram algumas melhorias em transporte público – mesmo se a linha 04 do metrô ficar aberta somente para atletas, trabalhadores olímpicos e espectadores durante o evento. É incontestável, no entanto, que os jogos do Rio estão imensuravelmente longe de cumprirem os grandiosos compromissos ambientais.
“Nos dias de hoje, as licitações de Jogos Olímpicos vêm recheadas de projetos ambientais que se denominam como legados”, disse Jules Boykoff, autor de “Power Games: A Political History of the Olympics”, “Mas Rio 2016 concorre para ser uma das olimpíadas mais greenwashed da história”.

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