O aumento das temperaturas, a poluição, a sobrepesca e as mudanças climáticas
estão afetando profundamente os mares que sustentam a vida no planeta.
Ecossistemas inteiros, como recifes de corais e manguezais, caminham para o
colapso, com a perda de biodiversidade em consequência do aumento de eventos
extremos. O excesso de dióxido de carbono na atmosfera não afeta apenas o clima,
ele também se dissolve nos oceanos, aumentando a acidez da água. Esse
processo, conhecido como acidificação oceânica, enfraquece estruturas calcárias
como os corais, comprometendo sua sobrevivência.
À medida que os corais morrem, seus esqueletos brancos ficam expostos, e a perda
desses ecossistemas afeta toda a biota marinha. A gradual e silenciosa perda dos
recifes de corais reduz a capacidade de digestão e a ciclagem da matéria orgânica,
além de diminuir a oferta de alimento no oceano. Tal consequência leva a uma
maior ausência de vida, fragilizando os oceanos. Como reguladores térmicos e pulmões do planeta, os oceanos são essenciais para o clima e a economia global. A
degradação dos oceanos está sendo uma ameaça direta à vida humana.

Fonte:https://www.researchgate.net/figure/Bleached-reef-communities-in-Grenada-A-B-and-Puerto-Rico-C-D-in-2005-A-high_fig1_7077379
A acidificação dos oceanos, provocada pela crescente absorção do dióxido de
carbono (CO₂) atmosférico pelas águas marinhas, produz um enorme impacto à
biodiversidade oceânica. Organismos como moluscos e corais, que dependem do
carbonato de cálcio para formar conchas e esqueletos, sofrem com a crescente
acidez das águas. O aumento da acidez da água dissolve e enfraquece o cálcio das
carapaças de proteção. Essa alteração compromete diversos serviços
ecossistêmicos, como a pesca, a proteção de zonas costeiras, o turismo e o sequestro de carbono, impactando diretamente as populações humanas que
dependem desses serviços para alimentação, renda e segurança ambiental
(Brander et al., 2012).
A vulnerabilidade a esses impactos varia conforme a dependência dos serviços
marinhos e da capacidade de adaptação. Comunidades costeiras, pequenas ilhas e
regiões com infraestrutura precária são as mais afetadas, especialmente onde a
pesca artesanal e os recifes de coral sustentam os modos de vida locais. Segundo
Cooley et al. (2012), esses grupos enfrentam riscos crescentes de segurança
alimentar, perda de renda e desequilíbrios nutricionais.

Fonte:https://www.salmonexpert.cl/tenacibaculum/tenacibaculum-tiene-caracteristicas-propias-de-microorganismos-patogenos-primarios/1514255
Nesse contexto, destacam-se o impacto das bactérias do filo Bacteroidota,
tradicionalmente reconhecidas por seu papel na decomposição de matéria orgânica,
mas que recentemente vêm sendo descritas como patógenos oportunistas em
ambientes marinhos. Gêneros como Tenacibaculum e Aquimarina estão associados
a surtos de doenças em macroalgas, corais, peixes e crustáceos, especialmente em contextos de estresse ambiental, como aumento de temperatura e salinidade
(Pérez-Pascual et al., 2017a; Hudson & Egan, 2022).

Fonte:https://florabase.dpaw.wa.gov.au/science/timage/26757ic1.jpg
Esses microrganismos costumam causar infecções em animais que já estão
enfraquecidos por fatores do ambiente, como aumento da temperatura da água,
mudanças na salinidade ou ferimentos. Frequentemente eles participam de
infecções junto com outros microrganismos ou atacam tecidos que já estão
danificados. As doenças associadas a Bacteroidota incluem tenacibaculose em
peixes e branqueamento em algas vermelhas, como Delisea pulchra e Gracilaria
verrucosa.

pontas das frondes quando submetida a estresse por excesso de luz, comum em águas rasas.
Variações de temperatura, salinidade e danos físicos favorecem infecções por bactérias do filo
Bacteroidota, que podem causar branqueamento e afetar o equilíbrio ecológico em
ambientescosteiros.
Fonte:https://www.researchgate.net/figure/Figura-1-a-Superior-izquierda-
Gracilaria-verrucosa-en-su-ambiente-natural-de-arena-y_fig1_317504187
Apesar da crescente detecção desses patógenos, a caracterização de como ela
evolui ainda é limitada, o que dificulta a formulação de estratégias de controle. Com
o avanço das mudanças climáticas e da pressão sobre os ecossistemas costeiros,
os Bacteroidota representam uma ameaça emergente à saúde marinha e à
aquicultura. O monitoramento e a pesquisa integrada sobre sua virulência e ecologia
são essenciais para prevenir impactos maiores sobre a biodiversidade e a produção
sustentável (Avendaño-Herrera et al., 2006; Hudson et al., 2022).
A degradação dos ecossistemas marinhos e os efeitos das mudanças climáticas
têm intensificado a incidência de doenças infecciosas em ambientes costeiros. A
maior incidência de doenças infecciosas nos organismos marinhos se transforma
em vetor de transmissão de agentes patogênicos aos humanos, especialmente via frutos do mar contaminados, recreação, transporte marítimo e descarte de esgoto
(NRC, 1999; Lipp & Rose, 1997).
Além disso, agentes patogênicos de origem viral, bacteriana e parasitária presentes
no oceano também afetam diretamente os seres humanos. Vírus como hepatite A e
norovírus, e bactérias como Vibrio parahaemolyticus e V. vulnificus, são comumente
concentrados por moluscos bivalves em águas contaminadas por esgoto (Grimes,
1991; CDC, 1998a; FAO/WHO, 2021). A ingestão de frutos do mar crus, o contato
recreativo com águas costeiras e a exposição por lesões cutâneas estão entre as
principais rotas de infecção.

amostra a aproximadamente 94–98 °C para separar as fitas de DNA; (2) Anelamento: resfriamento
para 50–65 °C, permitindo que os primers se liguem às sequências-alvo; (3) Extensão: aquecimento
a cerca de 72 °C, onde a DNA polimerase sintetiza novas fitas complementares. Cada ciclo de PCR repete essas etapas, resultando em amplificação exponencial do DNA alvo.
Fonte:https://www.slideserve.com/adah/pcr-rea-o-em-cadeia-da-polimerase-sequenciamento
Embora os métodos tradicionais de cultivo de microrganismos ainda sejam muito
usados para detectar patógenos em ambientes marinhos, eles têm algumas
limitações principalmente quando se trata de identificar rapidamente microrganismos
presentes em pequenas quantidades. Por isso, técnicas mais modernas como a
PCR (reação em cadeia da polimerase), sondas genéticas como marcadores que
ajudam a encontrar certos microrganismos no meio de muitos outros e o uso de
colifagos (vírus que atacam bactérias e servem como sinal de contaminação da
água por esgoto), têm ganhado destaque. Essas ferramentas ajudam a monitorar
melhor a presença de agentes infecciosos contribuindo para a segurança sanitária e
a prevenção de riscos à saúde.
Portanto, a saúde dos oceanos está diretamente ligada à saúde humana. Processos
Como acidificação, aquecimento das águas e a eutrofização aumentam a
vulnerabilidade de ecossistemas e comunidades costeiras. Proteger os mares não é
apenas uma questão ambiental, mas também um imperativo de saúde pública e
justiça social. Nesse contexto, políticas integradas e a cooperação internacional
tornam-se essenciais para mitigar os riscos, preservar a biodiversidade e garantir
condições dignas de vida às populações mais expostas.
Escrito por Gabrielle Da Silva Castro
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