O peixe Macropinna micróstoma, popularmente conhecido como “Olhos-de-Barril”, pertence à família Opisthoproctidae. Habitante das profundezas abissais, essa espécie desenvolveu adaptações impressionantes para sobreviver em um ambiente extremamente hostil, marcado pela escuridão permanente e pela escassez de alimentos. Seus olhos tubulares são altamente sensíveis, encapsulados em uma cúpula transparente na cabeça e preparados para atender às suas necessidades de orientação.

Fonte: https://escoladeciencias.wordpress.com/2013/06/06/video-peixe-com-cabeca-transparente/
O Macropinna micróstoma espécie mais famosa da família,foi descrito pela primeira vez em 1939, mas só em 2004 foi filmado vivo pela primeira vez por cientistas do Monterey Bay Aquarium Research Institute (MBARI). Esse registro revela detalhes surpreendentes sobre seu comportamento e anatomia que antes só podiam ser especulados com base em espécimes danificados, capturados por redes de pesca. A característica mais notável desse peixe é sua cúpula craniana transparente, preenchida por um fluido claro, que protege seus olhos extremamente sensíveis à luz, uma vez que nas profundidades onde vivem, a escuridão é quase completa. Ao contrário do que se imaginava, esses olhos podem se mover dentro do crânio, girando para frente na hora de capturar presas. Isso permite uma combinação única, entre visão voltada para cima, ideal para detectar silhuetas contra a pouca luz que penetra do alto, e visão frontal, útil para a alimentação.

Fonte:https://revistagalileu.globo.com/Sociedade/Curiosidade/noticia/2021/12/macropinna-microstoma-veja-imagens-raras-do-peixe-de-cabeca-transparente.html
O Macropinna micróstoma é encontrado geralmente em profundidades que variam entre 600 e 3600 metros, abrangendo as zonas mesopelágica inferior e batipelágica. Esse peixe possui olhos-tubo altamente especializados, otimizados para captar a luz bioluminescente emitida por outros organismos marinhos. As lentes são esféricas e grandes, permitindo o máximo aproveitamento dos poucos fótons disponíveis. Seus olhos estão envoltos por uma cúpula transparente que cobre a parte superior da cabeça, protegendo as estruturas oculares de possíveis danos, inclusive os causados por tentáculos urticantes de presas gelatinosas, águas vivas. Essa cúpula é conectada a escamas dorsais e ossos suboculares largos e transparentes, formando uma blindagem que atua como um escudo óptico e físico. Os olhos são capazes de girar dentro da cabeça, permitindo alternar entre visão voltada para cima e visão frontal. Essa mobilidade ocular garante ao Macropinna detectar presas acima de si enquanto flutua imóvel na coluna d’água, e então rastrear sua descida até o nível da boca, onde pode abocanhá-las com precisão. O corpo pequeno, com cerca de 15 cm, e as nadadeiras largas contribuem para sua capacidade de pairar estável no ambiente escuro e de alta pressão, economizando energia em regiões de escassez alimentar. Sua dieta consiste, em grande parte, de organismos gelatinosos como sifonóforos e zooplâncton.
A adaptação visual extrema observada no Macropinna é apenas uma das muitas variações encontradas dentro da família Opisthoproctidae. A Winteria telescopa, por exemplo, possui olhos tubulares permanentemente voltados para frente, conferindo-lhe uma visão binocular mais precisa, semelhante a telescópios naturais. Diferente do Macropinna, essa espécie não possui cúpula transparente, o que indica outras estratégias para proteção ocular.

Fonte: https://baubau.bg/top-10-jivotnite-neveroyatni-ochi
A Dolichopteryx longipes combina olhos tubulares móveis com lentes acessórias, ampliando o campo visual tridimensional, uma adaptação crucial em um ambiente onde presas e predadores podem surgir de qualquer direção. Suas nadadeiras longas e finas permitem que permaneça estático na coluna d’água, aguardando o momento exato para se mover.

Fonte:https://www.fishbase.se/Fieldguide/FieldGuideSummary.php?genusname=Dolichopteryx&speciesname=longipes&c_code=156
Já o Opisthoproctus soleatus apresenta olhos fixos voltados exclusivamente para cima, com retinas especializadas em captar a luz tênue que filtra a superfície. Essa orientação visual é comum em peixes que se guiam por bioluminescência ou pela chamada “neve marinha”, matéria orgânica que lentamente afunda das camadas superiores para as profundidades abissais.

A diversidade anatômica entre essas espécies é uma resposta direta à necessidade de enxergar e sobreviver em ambientes extremamente escuros. Algumas espécies apresentam retina dupla, lentes acessórias e camadas reflexivas internas semelhantes ao tapetum lucidum dos felinos, que potencializam a sensibilidade à luz. Por muito tempo, acreditou-se que os olhos-de-barril fossem um grupo pequeno e relativamente homogêneo, mas estudos recentes como os de Poulsen et al. (2016) mostraram que muitas espécies haviam sido mal classificadas, devido à má conservação dos espécimes em coleções científicas. Com o uso de novas análises morfológicas e genéticas o número de espécies reconhecidas dobrou, com a revalidação de gêneros como Monacoa e a identificação de características únicas, como placas dérmicas ventrais e estruturas oculares altamente especializadas.

Fonte:https://www.sciencephoto.com/media/1148297/view/mirrorbelly-monacoa-grimaldii-
A existência dos olhos-de-barril é um testemunho notável da engenhosidade evolutiva. Suas características anatômicas e comportamentais revelam estratégias minuciosas para sobreviver em condições extremas. A cada nova descoberta sobre esse grupo, aprofunda nosso entendimento sobre a complexidade e a fragilidade dos ecossistemas marinhos. Estima-se que atualmente conhecemos apenas 10% de todas espécies existentes nos oceanos. Muitas estão desaparecendo, antes mesmo que consigamos estuda-las e classifica-las. Quanto conhecimento e riquezas perdemos pela nossa falta de conhecimento.
Escrito por: Gabrielle da Silva Castro
Referências Bibliográficas :
https://www.nationalgeographic.pt/mundo-animal/peixe-cabeca-transparente-olhos-de-barril_5352
https://www.cell.com/current-biology/fulltext/S0960-9822(22)00242-1
https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0960982222002421