2024 foi o ano mais quente já registrado. Os 10 anos mais quentes da história, ocorreram todos na última década. Os níveis de dióxido de carbono na atmosfera, principal gás responsável pelo aquecimento global, também atingiram o ponto mais alto dos últimos 800 mil anos, segundo relatório divulgado pela Organização Meteorológica Mundial.

No documento, a agência destaca sinais claros de um planeta em aquecimento acelerado. Os oceanos bateram recordes de temperatura, o nível do mar continua subindo e as geleiras estão derretendo numa velocidade preocupante. Isto quer dizer que enquanto o calor ia aumentando os oceanos absorviam o que podiam em função da alta capacidade térmica de suas águas, ou seja, os oceanos acumulavam calor. Contudo o limite, sem danos perceptíveis pelo homem, está se esgotando. Os desastres naturais decorrentes de furacões e ressacas estão mais frequentes e se intensificando.
Diante desse cenário, o Brasil, um país com uma extensa faixa litorânea e milhões de pessoas vivendo em áreas costeiras, sofre os impactos do clima em transformação. Enchentes, secas e eventos extremos se tornam cada vez mais frequentes e intensos. É nesse contexto que a COP30, marcada para novembro de 2025 em Belém do Pará, ganha ainda mais relevância. Pela primeira vez, a conferência do clima da ONU será realizada na Amazônia e trarão os oceanos como tema central, destacando seu papel essencial no equilíbrio climático.

Os oceanos possuem um papel fundamental na regulação do clima, atuando como grandes reservatórios de calor, capturam o carbono e interferem nos ciclos climáticos.
Os oceanos conseguem absorver o excesso de calor da Terra. Cerca de 89% do calor extra gerado pelo aquecimento global é absorvido pelos oceanos. Esse papel é essencial pois se todo esse calor permanecesse na atmosfera, o planeta estaria ainda mais quente do que já está. A água tem uma capacidade térmica muito maior que o ar, ou seja, consegue armazenar mais calor evitando aquecer tão rapidamente.

Esse calor, no entanto, não desaparece. Ele se acumula nas águas superficiais e, com o tempo, é transferido para camadas mais profundas por meio das correntes oceânicas. Esse processo contribui para a estabilidade do clima, mas também gera impactos negativos. A expansão da água aquecida contribui para a elevação do nível do mar e o excesso de calor causa estresse térmico, levando ao branqueamento de corais e ao aumento de eventos extremos como furacões, secas e enchentes.

Outro importante serviço ambiental oferecido pelos oceanos é a captura de enormes volumes de gás carbônico (CO₂) na atmosfera que potencializam o aquecimento do planeta. Os oceanos conseguem armazenar cerca de 38 mil bilhões de toneladas de carbono, sendo o maior reservatório ativo do planeta. Eles absorvem CO₂ da atmosfera por dois principais mecanismos. Uma é conhecida como a bomba de solubilidade, na qual águas frias afundam levando o gás para as profundezas. Outra é chamada de a bomba biológica, em que os fitoplânctons usam o CO₂ para produzir matéria orgânica que também se deposita nas camadas profundas. Ou seja, os oceanos são verdadeiros sumidouros de gás carbônico. Esse tipo de serviço oferecido pelos oceanos ajuda a reduzir o aumento de oferta de CO₂ emanados pela queima de combustíveis fósseis produzida pela atividade humana.
Contudo essa capacidade de absorção do CO₂ pelos oceanos não é suficiente para conter o aumento da presença desse gás na atmosfera. Assim o excesso do CO₂ presente no ar reage com a água do mar produzindo uma substância ácida que prejudica a vida marinha. Além disso, quanto mais quente estiverem as águas do oceano, menor será a sua capacidade de absorver CO₂, o que compromete essa função à medida que o aquecimento avança.

Outro importante fator regulador dos oceanos diz respeito a sua capacidade de distribuir o calor pelo planeta devido ao transporte efetuado pelas suas correntes superficiais. As correntes oceânicas redistribuem calor pelo planeta, funcionando como um “sistema de ar-condicionado” global. Um exemplo é a Circulação Termohalina, também chamada de “correia transportadora oceânica”. Esta consegue levar as águas quentes dos trópicos para as regiões polares e traz na volta as águas frias, ajudando a equilibrar a temperatura do planeta.
Esse fluxo também influencia padrões climáticos regionais, como o inverno mais ameno na Europa Ocidental. Possíveis alterações dessa circulação, causadas pelo aquecimento global, e como consequência o derretimento do gelo na Groelândia podem desestabilizar o sistema, intensificando eventos extremos e alterando climas locais.

Se os oceanos perderem sua capacidade de regular o clima, os impactos serão graves. O aumento da temperatura provoca a expansão da água e a elevação do nível do mar, enquanto o excesso de CO₂ causa acidificação, afetando a vida marinha. Também existe o risco de colapso das correntes oceânicas que distribuem calor pelo planeta.

Essas mudanças desestabilizam o clima e tornam eventos extremos mais frequentes, como secas, enchentes, furacões e ondas de calor. As populações costeiras, especialmente em áreas urbanas, estão entre as mais vulneráveis, sofrendo com alagamentos, danos à infraestrutura urbana e perdas na pesca e no turismo.

Um dos focos da COP30 será a meta “30×30”, que visa proteger 30% dos ambientes marinhos e terrestres até 2030. Mais de 190 países, incluindo o Brasil, já aderiram à proposta, e espera-se que ela integre as estratégias de adaptação climática. A conferência contará com um Pavilhão do Oceano, reunindo cientistas, autoridades e comunidades costeiras para debater soluções baseadas no mar. O Brasil, que já protege mais de 26% da sua Zona Econômica Exclusiva-ZEE, pretende usar o evento para reforçar seu compromisso com a conservação marinha e destacar os oceanos como aliados no enfrentamento da crise climática.
Por fim, os oceanos são aliados essenciais e insubstituíveis no combate às mudanças climáticas. Eles regulam o clima, armazenam carbono e sustentam uma enorme biodiversidade, mostrando que sua preservação está diretamente ligada à saúde do planeta e a sobrevivência do homem. A COP30 representa uma oportunidade histórica de colocar o oceano no centro das políticas ambientais globais, reconhecendo seu importante papel na mitigação dos impactos do aquecimento global. Proteger os oceanos é proteger a vida na Terra. É urgente agir agora para garantir um futuro sustentável para as próximas gerações.
Escrito por Clara Adriano
Referências:
https://apnews.com/article/climate-change-united-nations-bb8e475cdaa3b3fb348f88276837d50e
https://www.ipcc.ch/srocc/chapter/chapter-1-framing-and-context-of-the-report/
https://marine.copernicus.eu/explainers/why-ocean-important/heat-storage?utm_
https://www.climate.gov/news-features/understanding-climate/climate-change-ocean-heat-content?utm_
https://biologyinsights.com/ocean-uptake-how-marine-systems-absorb-carbon-dioxide/?utm_
https://weathereventsexplained.com/thermohaline-circulation/?utm_