COP-30 e Cidades Costeiras: Sobrevivência e Adaptação Climática

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Ressacas, enchentes, ventanias, ondas de calor e chuvas volumosas são sinais evidentes de que o clima mudou. A sensação de insegurança se faz presente ao longo do litoral em decorrência desses eventos extremos. Fenômenos climáticos e oceanográficos anômalos se apresentam com mais frequência e põem em risco o funcionamento das áreas urbanas. As cidades costeiras não foram dimensionadas para suportar esse tipo de cargas ambientais que ameaçam o bem estar das pessoas. Os eventos climáticos podem deixar cicatrizes indesejáveis, tanto no cotidiano como na mente das pessoas. Reduzir os impactos e aumentar a resiliência nas cidades ao longo do litoral significa adaptar-se a uma nova realidade climática, uma questão de sobrevivência. Portanto, o planejamento de medidas preventivas para aumentar a resiliência, e de contingência para administrar o desastre quando este acontecer, torna-se uma necessidade. Essas são algumas das ações fundamentais para reduzir as perdas (materiais e de vidas) e restabelecer a normalidade da cidade no espaço de tempo mais exíguo possível.

Figura 1. Maior exposição das cidades costeiras nas planícies costeiras. Fonte: https://www.mprs.mp.br/media/areas/urbanistico/arquivos/cartilha_areas_risco.pdf

Quais seriam, pela ordem, as principais ameaças climáticas e seus efeitos colaterais mais frequentes que poderiam afetar a normalidade das cidades costeiras?

  • Elevação repentina do nível do mar provocando enchentes;
  • Energização do mar (ondas) causando erosão costeira e risco a navegação;
  • Ventos intensos provocando quedas de árvores e danos as edificações;
  • Ressacas que alteram a morfologia da linha de costa;
  • Chuvas volumosas alagando as baixadas costeiras;
  • Frequência dos eventos que provocam a insegurança social.
Figura 2. Avanço do nível do mar nas cidades costeiras. Fonte: https://ferdinandodesousa.com/2023/06/26/segundo-a-nasa-o-nivel-do-mar-aumentou-10-cm-nos-ultimos-30-anos/

Uma vez identificado este conjunto de ameaças, procuram-se as áreas urbanas mais sensíveis aos danos climáticos. Através da pesquisa de registros de acidentes previamente ocorridos e relatados em bibliografia técnica, bem como na mídia digital, é possível identificar as manchas urbanas mais expostas. O mapeamento das áreas ameaçadas e respectivos impactos permite propor soluções mais focadas e eficazes de forma a reduzir os custos e os prazos de execução.

Figura 3. Mapeamento digital da área de inundação em Porto Alegre-RS, maio 2024. Fonte: https://olhardigital.com.br/2024/05/21/pro/mapa-3d-revela-impacto-das-inundacoes-em-porto-alegre-veja/

Para reduzir os riscos de desastres naturais será preciso também aprender a adaptar os aglomerados urbanos costeiros visando aumentar a sua resiliência e a sua capacidade de resposta para enfrentar os eventos extremos. O desenvolvimento desses mecanismos se inicia nas cidades brasileiras mais ameaçadas e que possam servir de estudo de caso para serem espelhadas mais tarde. Rio de Janeiro, Recife, Santos, Belém, Paraty dentre outras são ótimas oportunidades para iniciar o desenvolvimento de metodologias práticas de adaptação climática. Como a adaptação é de natureza preventiva, o mesmo se processa através de estudos e planejamento de medidas a serem implantadas com antecedência e ao longo do tempo. Para tanto, ações de monitoramento e de levantamento da evolução dos acidentes e ameaças precisam começar desde já.

O método empírico, que relaciona à observação, a experiência e a coleta de dados reais para confirmar testar e validar as hipóteses consideradas é uma abordagem muito eficaz para desenvolver medidas para a adaptação urbana frente as mudanças climáticas. A complexidade dos diversos fatores ambientais e antrópicos que variam de local para local, podem ser melhor considerados nesse tipo de abordagem. 

Figura 4. Inundação das ruas da cidade histórica de Paraty-RJ. Fonte:https://euamoparaty.com.br/como-fotografar-mare-cheia-paraty/

A viabilidade econômica do processo é outro fator fundamental para a realização do estudo. Ela se constrói em função da opinião pública consolidada (vivência social do perigo) e a percepção social (emergência da situação). Com esses dois quesitos cria-se um cenário de enorme interesse social atraindo a participação de potenciais patrocinadores que queiram vincular sua imagem em um empreendimento social e ambiental com grande visibilidade. 

Também faz parte da viabilidade econômica, perseguir uma estratégia de aproveitamento dos serviços da natureza existentes no local. Com ela se confere uma maior resiliência natural da faixa costeira além de proporcionar uma economia tanto na construção como na manutenção das estruturas projetadas. Assim estruturas naturais como áreas baixas de inundação, uma faixa de manguezal, recifes de corais, praias arenosas dentre outras são considerados elementos valiosos para conferir maior resiliência nos espaços costeiros contra as ameaças climáticas.

Figura 5. Renaturalização das praias urbanas. Fonte: https://www.gazetadopovo.com.br/parana/praias-cidades-engenharia-costeira-convivencia/

A integração entre a teoria e a prática para o desenvolvimento de soluções de adaptação inovadoras, onde o projeto é testado em uma sucessão de tentativas de erros e acertos, tem demonstrado ser a melhor estratégia. Uma vez, que tanto a natureza como as cidades tem evoluído de forma aleatória e desconexa, nenhum padrão ainda foi possível de ser encontrado para representá-lo. Assim como as ameaças climáticas e as cidades estão em constante transformação, as medidas adaptativas também não são permanentes e estáticas. Elas variam e se adaptam com o tempo. 

Trabalhar com a natureza e as cidades é saber decifrar e acompanhar a evolução do equilíbrio dinâmico entre as cargas ambientais e as demandas humanas.

Escrito por David Zee

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